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03-mai-01
Carol Ferreira - Qual a idéia que você quis passar com o filme?
Phillipe Barcinski - Tanto no Palíndromoquanto nos outros curtas que eu fiz, procuro sempre manter um equilíbrio entre uma experimentação de linguagem e uma narrativa atraente, tentando não deixar o filme hermético. O ideal é fazer coisas novas, mas fazer um filme que possa ser exibido em televisão ou como foi no Festival, para 2500 pessoas.
CF _ E por que de trás para a frente?
PB - Eu vi alguns filmes que mexiam com isso, mas nunca tinha visto um com uma história inteira de trás para frente. A tentativa do Palíndromo é um exercício narrativo mesmo, as pessoas andam de costas, o som é ao contrário e isso gera alguns efeitos interessantes, pois ele começa numa situação de ápice dramático e a expectativa que se cria é saber como a pessoa atingiu aquele ápice. É realista, mas tem um ar poético.
JB - E como você conseguiu aquele efeito com a câmera?
PB - Não há câmera por aqui que consiga filmar de trás pra frente. A gente teve que filmar com a câmera de cabeça pra baixo, com o outro lado do filme.
Em seus curtas (A Escada, A Cela e Postal Branco), você costuma trabalhar com uma idéia, e não uma história, e a partir de então começa a 'viajar' naquilo. Essa é uma metodologia?
PB - Pra curta-metragem, eu prefiro que o filme seja mais uma experimentação do que uma historinha bem contada. Tento mostrar uma idéia e dar um olhar diferente para ela.
A O2, produtora de Palíndromo e de mais dois filmes que estão no festival, é uma produtora de publicidade. Como é trabalhar com uma empresa assim no cinema e existe algum risco da linguagem publicitária ser inserida nos filmes?
PB - Já trabalhei como assistente de direção no cinema, na televisão e agora estou trabalhando com publicidade. E estou adorando. O importante é você ter um aprendizado permanente por filmar com freqüência. Não dá querer ser cineasta no Brasil e filmar somente de quatro em quatro anos. O aparato do cinema é muito complexo e manhoso, então a cada filme (publicitário) dá para aprender um pouquinho. Até mesmo do lado operacional, se vale a pena fazer um plano a mais ou não, mudar a posição da câmera e testar mais meia hora, se filma antes ou depois do almoço, isso dá o traquejo da coisa. Quanto à publicidade contaminar a estética do cinema, eu não vejo isso. Mas talvez pra quem começa a fazer publicidade e não sabe muito bem o que quer com cinema, talvez seja fácil se perder. Acho que essa visão que algumas pessoas têm da publicidade no cinema é antiga, principalmente daqueles que trabalharam nos anos 60, quando o mercado cinema e publicidade era mais 'divorciado'.
Você tem algum projeto em longa-metragem?
PB - Tenho. No momento, estou com um outro curta filmado, em fase de finalização, que se chama A Janela Aberta e deve ficar pronto no segundo semestre. E ao mesmo tempo que estou finalizando ele, desenvolvo duas histórias em longa que ainda estão bem insipientes. Quero muito fazer longa, quero contar uma história maior também
Fala um pouco mais desse próximo curta.
PB - Eu filmei A Janela Aberta com um prêmio do Ministério da Cultura e ele parte de uma idéia que surgiu com uma amiga minha psiquiatra. Ela trata de pessoas que têm uma doença chamada de TOC, que é uma 'doença' que todo mundo tem em menor escala, mas que quando está em maior escala vira uma patologia. É aquilo de você ter pensamentos obsessivos que ficam voltando pra sua mente o tempo todo e você cria rituais pra conviver com eles. Esses pensamentos são coisas triviais como 'eu desliguei ou não a luz', 'fechei ou não o gás'. E há pessoas que convivem com isso de uma forma mais barra-pesada. E o filme é assim, um cara que está numa situação trivial, deitado na cama tentando lembrar se fechou ou não uma janela na sala. E ele fica pensando e então começa a lembrar do que ele fez pra se lembrar se fechou ou não a janela, mas aí a coisa vai crescendo, tomando ares de patologia mesmo e ficando assustador. É uma experimentação de linguagem.
O cinema brasileiro hoje tem uma qualidade técnica bem superior ao que se fazia há poucos anos. Mas em relação a roteiros, como você situa os filmes brasileiros?
PB - O roteiro é o ponto fraco da maioria dos filmes nacionais. Mas acho que isso está melhorando. Existe uma nova geração de roteiristas que por muito tempo ficou sem aparecer e estão voltando a trabalhar agora. Nos últimos cinco anos surgiram nomes que a gente não tinha antes.
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