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Duas estrelas

ONE WAY É CULT-CAFUÇÚ

Por Kleber Mendonça Filho

One Way, o vídeo pernambucano de Jorge de Souza e Fernando Carmino, foi a sensação das exibições do 5o Mix Brasil, aqui no Recife. Quem viu, comentou, e os que não viram, já ouviram os comentários, e agora querem vê-lo. Para André Fischer, curador da mostra, o vídeo é um "quase cult", e já anuncia que o levará ao Segundo Festival Mix de La Diversidad Sexual, no próximo mês de março, no México, e ao 6th Tokyo International Lesbian and Gay Film Festival, em maio.

A definição "quase cult" de Fischer é adequada. One Way é fora dos esquadros o bastante para ser cult, mas rude o suficiente (certamente Recife o suficiente) para a comunidade homossexual local não querer ter qualquer tipo de relação de afeição com ele (pelo menos abertamente). É uma espécie de Cult-Cafuçú.

Souza e Carmino definem com precisão o vídeo como "um trash homoerótico". Ele enquadra-se realmente dentro do que convencionou-se rotular de trash, numa época em que esse termo (ou gênero) tem sido transformado em artigo de luxo em boutiques de criação, seja no cinema, vídeo, teatro ou televisão. Isso tem resultado em monstrengos falsos, homenagens simplórias a Ed Wood e Anemokol, ou seja, lixo de vitrine. One Way, por outro lado, é lixo genuíno, trash de primeira, no cheiro e na aparência.

Num VHS borrado/noturno, somos apresentados a Taco e Neco (Ermerson Negrão e Carlos Paez, em diferentes graus de decomposição), dois garotos de programa que se conhecem na sarjeta, dividem um cigarro de maconha e selam uma espécie de pacto com um beijo lambido e demorado. Começa, então, uma ronda pelo Centro do Recife regada a cocaína, sexo, estrangulamento e um certo desprezo por "rachas" (erm...mulheres), como na cena envolvendo uma prostituta, na Ponte Velha. Esta cena, aliás, tem uma espontaneidade que seria benvinda no resto do vídeo.

Aos trancos e barrancos, Souza e Carmino vão tocando a trama de amor bandido, que nunca fica realmente chata nos 30 minutos de duração. Eles dão algumas pinceladas nos perfis dos dois personagens (Taco é o mais gay da dupla) e parecem orgulhosos de estarem mostrando cenas de sexo com tanta abertura (implícito, com nudez parcial). Nota-se um deleite por parte dos realizadores em cada uma dessas cenas, que têm o timing de uma fita de sacanagem, e não de um trabalho de ficção.

Mas, tudo bem, faz parte do trash o ingrediente do exagero, também presente na utilização da bicha maluca como alívio cômico, coisa que observamos em filmes nacionais como Navalha Na Carne e Como Ser Solteiro. A idéia é arrecadar alguns centavos de gargalhadas com o palhaço sexual em potencial que toda bicha é, aqui defendida com precisão típica dos palcos pernambucanos por Alfredo Borba, como "Baby". A platéia adora.

Num balanço geral, é muito bom que One Way exista, e uma pena que a produção local de ficção seja tão pequena. O vídeo aponta para uma liberdade temática e estética realmente saudável, diretamente relacionadas ao poder que câmeras baratas de vídeo são capazes de promover na área da expressão via imagens. Há uma captação saudável de um lado do Recife que nunca foi mostrado antes, algo que deve ser perseguido por mais realizadores, com mais câmeras. Chega de filmar nossas praias ensolaradas e nossos canaviais!! Já foram registrados o suficiente para abastecer de imagens as nossas próximas três gerações! Por que não voltar as câmeras para a cidade, onde os donos das imagens vivem e moram? Souza e Carmino certamente começaram a cobrir o lado deles.

PS: as duas estrelas lá em cima reconhecem mais a bravura deste projeto do quê exatamente poder de expressão, síntese, técnica ou mise en scéne.

Vídeo visto no Teatro do parque, Recife, Dez 98
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