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RETRATO DIRETO
Por Kleber Mendonça Filho
7/9/2006
Algo sugeria que um documentário sobre Dom Helder Câmara poderia resultar num registro burocrático, enumerador de feitos e fatos e não tanto uma investigação do homem em si. Esta pré-concepção talvez tenha vindo de tantos documentários escolares sobre o personagem que, de outra forma, aparentava ser o âncora perfeito para um filme. Essa figura duas vezes indicada ao Prêmio Nobel da Paz era carismático, gerador necessário de conflitos por se impôr pessoal e politicamente, e pode ser descrito (como o é neste filme) de "rebelde". Quando eu vi, há dois anos, no festival Cine Ceará, o filme Dom Helder - O Santo Rebelde, a surpresa foi grande. Esse documento de 74 minutos realizado pela diretora brasiliense Erika Bauer consegue mostrar enorme interesse pelo personagem fascinante que foi Dom Hélder, arcebispo de Olinda e Recife desde 1964 (falecido aos 90 anos em 1999), mas que parecia enxergar o mundo, a humanidade e as políticas com visão abrangente e global.
O filme, que não é um perfil chapa branca de alguém acima do bem e do mal, estréia no Recife no Cinema da Fundação depois de ter sido exibido, ano passado, numa sessão pública no Morro da Conceição. Teria tido uma sessão importante no Cine PE do ano passado, festival que a diretora Erika Bauer e a produtora Andréa Glória queriam como vitrine para o filme. A organização do Cine PE, no entanto, não se interessou (surpreendentemente) em programar o documentário nas sessões nobres do Teatro Guararapes. Ofereceu espaço para o filme na grade secundária do evento, que transcorre uma semana antes, em alguns bairros. Os realizadores ficaram decepcionados e, segundo Glória, preferiram não exibir.
Uma pena, pois a possibilidade de diálogo do filme com o público pernambucano é grande. O trunfo de Dom Helder - O Santo Rebelde existe no fato de Bauer, munida de vasto material de arquivo, mostrar interesse pela pessoa que foi Dom Helder Câmara, um religioso a serviço da Igreja Católica mas que sugeria ter, ele próprio, uma igreja pessoal dentro dele, inspirada por uma percepção de mundo baseada nas suas observações do que acontecia no nordeste especialmente miserável de 40 ou 50 anos atrás.
A frase mítica creditada a ele "Se dou comida a quem tem fome, sou santo. Se pergunto porque estão com fome, sou comunista" pode apenas começar a sugerir os embates que teve entre o governo militar que o pintou de comunista, no Brasil dos anos 60 e 70, e também os choques de filosofia entre ele e o Vaticano de João XXIII e Paulo VI. Para espectadores de hoje, o filme resulta numa sessão sempre interessada e seria fácil transformar (se é que ele já não é) Dom Helder Câmara numa dessas figuras míticas e desobedientes, com postura quase pop de rebeldia perante um mundo desigual.
Muito interessante, por exemplo, é o clima estabelecido pelo filme no sentido de nos informar sobre a repressão às idéias dentro do Brasil pós Golpe de 64 (e subsequente geração de medo), que trouxe angústia a Helder e seus aliados, com ameaças físicas feitas à sua residência.
O assassinato do Padre Henrique também é abordado, ilustrando de maneira íntima a possibilidade de violência naquela época e apresentando forte contraste com a liberdade de expressão que ele exercia em viagens ao exterior que fizeram dele uma das figuras mais conhecidas do âmbito internacional, despertando o desconforto da Igreja Católica e inspirando duas indicações ao prêmio Nobel da Paz. Especula-se no filme que tanto as indicações como o fato de ele não ter finalmente ganho têm explicações políticas.
Algumas das imagens mais ricas do filme são inéditas e mostram o diminuto Dom Helder em franco domímio de um francês perfeito, mas curiosamente carregado de brasileiro-nordestês, em universidades estrangeiras, dominando vastas platéias de jovens hipnotizados pelo seu falar e suas idéias, um pouco como o efeito desse filme sobre o espectador.
Filme visto no São Luiz, Fortaleza, durante o Cine Ceará, Junho 2004
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