De Bass a Imaginary

14-mar-01

Por Marcos Buccini

Um pouco de Hist¢ria da Tipografia

No seu valor prim rio a tipografia est  relacionada … fon‚tica das palavras por meio dos caracteres ortogr ficos. Cada letra, antes de mais nada, representa um som. Por‚m, ‚ imposs¡vel ignorar que os tipos de letras possuem visualmente uma 'personalidade'; algumas tipografias sÆo mais s‚rias que outras e, dependendo de como for usada, a mesma tipografia pode ter significados bem diferentes.

Esta caracter¡stica representativa das tipografias foi bastante explorada pelos movimentos de vanguarda do come‡o do s‚culo XX, como Futurismo e Construtivismo. Os futuristas pregavam o uso da tipografia para intensificar o conte£do dos textos. Por exemplo, o uso de it lico e negrito poderia ser associado … velocidade e … for‡a respectivamente. Outras experiˆncias tipogr ficas eram realizadas com os tamanhos das letras e com a dire‡Æo da linha de texto, que poderia ser vertical, inclinada e at‚ curva. Estas experiˆncias deveriam ter rela‡Æo com o conte£do do texto e nÆo surgir ao acaso.

Id‚ias tipogr ficas surgidas na escola alemÆ Bauhaus deram origem ao Funcionalismo Su¡‡o ou Estilo Internacional, que defendia uma tipografia universalmente neutra, compreens¡vel e funcional. Estas id‚ias eram dominantes nas d‚cadas de 60 e 70, quando novos conceitos come‡aram a surgir na Escola Basil‚ia. Seu mentor Wolfgang Weingart rejeitava o ƒngulo reto como princ¡pio organizacional, desprezava malhas matem ticas e baseava seus arranjos em pensamentos subjetivos e intuitivos. Para ele nÆo existia diferen‡a entre tipografia e elemento gr fico, justapunha colunas de texto e texturas, causando ru¡dos visuais vistos at‚ entÆo como erros. Weingart desfigurava a tipografia at‚ que ficasse dif¡cil de ler.

J  na d‚cada de 70, surgiram movimentos de cunho pol¡tico e social, entre eles estÆo o psicodelismo e o punk. O psicodelismo era contra os valores vigentes nos anos 60, suas influˆncias principais eram as drogas, o rock, os quadrinhos e a libera‡Æo sexual. Graficamente buscava caracter¡sticas do Art Nouveau, formas orgƒnicas, assimetria e cores fortes. Um dos principais expoentes da tipografia psicod‚lica foi Victor Mocoso, cujo trabalho gr fico baseava-se nos quadrinhos e cartazes de circo. Ele procurava inverter as regras cl ssicas, usando textos ileg¡veis, cores vibrantes, alterando as serifas e o peso das letras. Ficou conhecido pelos cartazes de shows de rock que produzia.

O movimento punk, surgido no final dos anos 70, era contra as id‚ias do psicodelismo. Apesar de terem divergˆncias, os dois guardam certas semelhan‡as, entre elas, o fato de serem movimentos underground (seus ideais eram contra a cultura 'oficial' do 'sistema') e buscarem inspira‡Æo na m£sica e quadrinhos. Esteticamente o punk era agressivo e sujo. Uma das maiores influˆncias visuais do punk foi atrav‚s dos fanzines, publica‡äes alternativas de pequenas tiragens. Essas publica‡äes eram, em sua grande maioria, feitas por pessoas sem experiˆncia de editora‡Æo e sem equipamentos adequados. Muitas vezes textos j  impressos eram reaproveitados; usavam-se colagens, recortes de letras e palavras, textos batidos a m quina e corrigidos a mÆo, fotos em alto contraste e disposi‡Æo nÆo ortogonal dos textos. A reprodu‡Æo era atrav‚s de c¢pias xerox e mime¢grafadas. O design gr fico 'oficial', principalmente em t¡tulos destinado ao p£blico jovem, como as revistas inglesas I-D e The Face, incorporaram estas experimenta‡äes

As d‚cadas de 80 e 90 reuniram os principais elementos para o surgimento da tipografia denominada 'p¢s-moderna', que aproveitou as id‚ias das d‚cadas precedentes e o surgimento e avan‡o de novas tecnologias, principalmente o computador pessoal.  esta tipografia que foi classifica como Grunge marcou os anos 90. Ela se caracterisa por ser uma tipografia que nÆo se preoculpa com a legibilidade, e sim com a forma, que j  ‚ suficiente para transmitir uma id‚ia.

Hoje em dia, nos trabalhos gr ficos, a fun‡Æo da tipografia vai al‚m da composi‡Æo das palavras. A forma e a maneira como ‚ apresentada j  passam a id‚ia do que ela significa, ou pretende significar. Pois, numa cultura visual tÆo saturada de informa‡äes ‚ preciso chamar a aten‡Æo do leitor, transmitindo a mensagem da maneira mais r pida e eficiente poss¡vel. A gera‡Æo que sucede a atual est  criando uma nova forma de percep‡Æo visual, o que se deve … convivˆncia com o v¡deo clipe, multim¡dia e realidades virtuais.

Outra caracter¡stica dessa nova est‚tica ‚ a de desafiar o leitor a partir de textos ileg¡veis. Podemos entÆo notar que a ilegibilidade, que antes repudiava o leitor, est  sendo usada justamente para atrair a sua aten‡Æo. Meios de comunica‡Æo como a TV, o cinema, o v¡deo e, recentemente, a internet e o CD-ROM permitiram e delinearam novas propriedades … interferˆncia na tipografia. Canais de televisÆo destinados ao p£blico jovem, MTV por exemplo, exibem vinhetas dos programas e at‚ mesmo propagandas com muita velocidade e montagens 'agressivas'. No cinema, principalmente nos cr‚ditos de filme, as experimenta‡äes tipogr ficas contam com movimento, distor‡äes, filtros, montagem e mais uma infinidade de efeitos que se vˆm tornando cada vez mais presentes com o uso do computador.

Cr‚ditos de filmes, o que sÆo?
Os cr‚ditos de um filme tˆm como principal fun‡Æo informar que pessoas estiveram envolvidas na produ‡Æo do filme. NÆo se deve confundir cena inicial com 'cr‚dito de filme'. A cena inicial ‚ a primeira seqˆncia de um filme, podendo ou nÆo ser o 'cr‚dito'. O cr‚dito de um filme pode possuir trˆs elementos b sicos: m£sica, imagens e tipografia. Alguns filmes possuem seqˆncias, com os mesmos elementos, que sÆo chamadas de 'cartelas de informa‡Æo', que podem vir no come‡o, meio ou fim do filme. Elas possuem fun‡äes diferentes dos cr‚ditos, pois visam contextualizar o espectador com fatos, lugar ou tempo em que se passa a hist¢ria. Como exemplo cl ssico, podemos citar a cena de abertura da s‚rie Guerra nas Estrelas, onde letras vÆo subindo em perspectiva at‚ sumirem no fundo.

Observa-se a existˆncia de 2 tipos de cr‚dito: o principal e o secund rio. O principal vem, geralmente, no come‡o, apresentando os principais nomes de forma seqenciada. Por‚m, h  casos em que ele aparece no final (Jurassic Park, de Steven Spielberg) ou at‚ dividido (The Matrix, dos irmÆos Wachowski), aparecendo o t¡tulo no come‡o e os nomes dos envolvidos no final do filme. O secund rio, por sua vez, vem quase sempre no final da proje‡Æo, deslocando-se de baixo para cima (exceto em Seven, de David Fincher, que ‚ de cima para baixo) e listando todas as pessoas e empresas envolvidas no filme.

Alguns autores aproveitam os cr‚ditos para, al‚m de passar a informa‡Æo sobre os participantes da produ‡Æo, realizarem "pequenos filmes" que possuem a inten‡Æo de preparar a audiˆncia para o que est  por vir. A id‚ia ‚ esquentar os olhos e a cabe‡a da plat‚ia rec‚m chegada, munindo a abertura do filme com informa‡äes importantes (freqentemente simb¢lica) sobre o que vir  a seguir e visando o maior impacto visual poss¡vel.

As primeiras utiliza‡äes de texto em filme se deram ainda no cinema mudo Nesta ‚poca os cr‚ditos eram exibidos em cartelas impressas ou feitas a mÆo, sempre est ticas. As cartelas al‚m de contextualizar o p£blico com a hist¢ria, tamb‚m servia para substituir a fala dos atores. Enquanto que, George M‚ilŠs, um dos primeiros diretores do cinema, j  experimentava a anima‡Æo de textos em filmes publicit rios. O movimento na tipografia em cr‚ditos s¢ ocorreu na d‚cada de 50, em filmes de terror e monstros, como em The Thing from Another World, onde um fundo preto deteriorava-se formando o t¡tulo do filme que era preenchido por uma facho de luz que passava entre as frestas. Ainda na d‚cada de 50, designers como Saul Bass e Pablo Ferro come‡avam a se destacar pelo uso de t‚cnicas de anima‡äes de imagens e texto em comerciais de TV, curtas e longa metragens.

Um dos primeiros designers a se destacar na tarefa de criar cr‚ditos de filmes foi o americano Saul Bass que, foi respons vel por uma nova "esp‚cie" de cr‚ditos de filmes na d‚cada de 50 e 60, entre eles Um Corpo Que Cai e Intriga internacional ambos de Alfred Hitchcock; e O Homem do Bra‡o de Ouro e Anatomia de Um Crime de Otto Preminger. Martin Scorsece, famoso diretor americano que trabalhou com Bass em quatro de seus filmes, disse que "Saul Bass transformou os cr‚ditos em arte, suas composi‡äes serviam de pr¢logo para o filme, dando o tom e preparando a plat‚ia para o que estava por vir." Um exemplo do trabalho de Bass com tipos em movimento sÆo as entradas dos filmes Psicose, de Hitchcock e Os Bons Companheiros, de Martin Scorsese.

Outro importante designer ‚ Pablo Ferro, que vem trabalhando com filmes e TV desde a d‚cada de 60. Ele foi respons vel pela cria‡Æo do “quick cut”, uma t‚cnica de edi‡Æo, onde sÆo feitas mudan‡as r pidas de imagens, sem continuidade. Esta t‚cnica, vinte anos depois, foi adotada pela emissora de televisÆo MTV, o que valeu a Pablo Ferro o t¡tulo de “pai da MTV”. O trabalho mais famoso de Ferro ‚ sem d£vida a cena de abertura de Dr. Fant stico, de Stanley Kubrick, onde foi usada uma tipografia feita a mÆo. Esta mesma tipografia tamb‚m foi utilizada na abertura de Homens de Preto, de Barry Sonerfeld. Outros trabalhos de Pablo Ferro sÆo os cr‚ditos dos filmes: Gˆnio Indom vel, Doutor Dolittle e Anna Karenina.

Mesmo com o trabalho destes designers, principalmente de Saul Bass, pouca importƒncia foi dada aos cr‚ditos de filmes. Algumas exce‡äes podem ser encontradas nos cr‚ditos de To Kill a Monckingbird’s, do diretor Robert Mulligan, feita por Stephen Frankfurt e no final da d‚cada de 70 e come‡o de 80, quando o mercado de cr‚ditos foi dominado pela empresa de efeitos especiais R/Greenberg Associates, R/GA - empresa fundada pelos irmÆos Richard e Robert Greenberg em 1977, sediada em Nova Iorque, respons vel por aberturas de filmes como Alien, Viagens Alucinantes e Superman. J  na d‚cada de 90, coube a Kyle Cooper e seus s¢cios Peter Frankfurt (filho de Stephen) e Chip Houghton, fundadores da Imaginary Forces, a tarefa de "...revitalizar a abertura de filmes como uma forma de arte". A revista I.D., no artigo Title Wave, apresenta cada per¡odo desses como “ondas”, sendo uns mais importantes do que outros. Pode-se dizer entÆo que Bass inaugurou a “primeira onda”; Frankfurt deu continuidade com a “segunda onda”; a R/GA foi respons vel pela “terceira” e, no momento, estaria acontecendo a “quarta onda”, onde a maior representante ‚ a empresa Imaginary Forces.

 importante tamb‚m destacar o trabalho de outras empresas que produzem cr‚ditos de filmes e v¡deo atualmente, como por exemplo: a empresa Boreau, sediada em Nova Iorque, e que trabalha sempre com filmes independentes, entre os seus trabalhos mais importantes podemos destacar Safe, Tempestade de Gelo, Office Killer e I Shot Andy Warhol; a P2, tamb‚m sediada em Nova Iorque, que trabalha com media digital, v¡deo e filme, seus trabalhos mais significativos estÆo na  rea de v¡deo; o escrit¢rio nova-iorquino Balsmeyer & Everett, especialista em cr‚ditos, j  trabalhou em O Grande Lebowsky, Dead Man e Short Cuts; muito importante tamb‚m ‚ o trabalho do cineasta inglˆs Peter Greenaway, que mistura em seus filmes: fotografia, tipografia, caligrafia, pinturas e ilustra‡äes.

Kyle Cooper e Imaginary Forces
Kyle Cooper estudou design gr fico na Universidade de Yale, onde foi aluno do consagrado designer americano Paul Rand. No seu projeto de conclusÆo de curso ele pretendia fazer um estudo sobre cr‚ditos de filmes, por‚m foi desestimulado pelos seus professores, pois achavam um estudo de pouca importƒncia. Cooper ensinou motion graphics na Universidade de Pasadela por dois anos. Influenciado, por‚m, por designers como Saul Bass e Robert Brownjohn, criador das aberturas dos filmes do personagem 007, Cooper decidiu dedicar-se a  rea de cr‚ditos de filme e em 1988 come‡ou a trabalhar na empresa R/Greenberg Associates. Trabalhou nesta empresa at‚ 1992 como diretor de arte, quando foi promovido a diretor de cria‡Æo e passou a atuar na filial em Los Angeles. L  realizou trabalhos como Cora‡Æo Valente, Free Willy, Esqueceram de mim 1 e 2, Minha Amada Imortal, Contos de Nova Iorque, O éltimo Grande Heroi, Predador 2, The Fan, True Lies, Twister e Lobo. Em 1996, ainda na R/Greenberg Associates, Cooper se destacou por fazer a entrada do filme Seven, considerado um marco para o novo design de cr‚ditos, como afirma o cr¡tico de cinema Kleber Mendon‡a Filho: "A abertura de Seven, de David Fincher, com suas imagens coladas de demˆncia e violˆncia, virou um dos trabalhos mais influentes da d‚cada de 90." Logo em seguida, realizou o trabalho que terminaria de consagr -lo, os cr‚ditos de A Ilha do Dr. Moreau, do diretor John Frankenheimer. Foi o bastante para Cooper e seus s¢cios, que j  trabalhavam juntos na R/GA LA, criarem a pr¢pria empresa, a Imaginary Forces, cujo o nome foi tirado da obra Henrique V, de William Shakespeare.

A Imaginary Forces foi inaugurada em janeiro de 1997 e, desde entÆo, tornou-se o grande nome em cr‚ditos de filmes da ind£stria de Hollywood. Entre seus principais trabalhos podemos citar A M£mia, For‡as do Amor, As Loucas Aventuras de James West, Gattaca e Donnie Brasco. Em pouco tempo de trabalho j  conquistou prˆmios como New York Art Directors Club Awards, British D&AD Gold Award, o AIGA Awards, entre outros.

Al‚m de cr‚ditos, a empresa produz um variada gama de trabalhos: trailers e campanhas promocionais de filmes; comerciais e abertura de programas para a TV; embalagens de softwares e anima‡äes para multim¡dia, como por exemplo a anima‡Æo do cometa no browser da Netscape; logos e anima‡äes para empresas como Icon, Great Oaks e 1492 Pictures. Recentemente a Imaginary co-produziu o filme “Blade”.

A diferen‡a mais marcante entre os primeiros trabalhos de Cooper na R/GA e na Imaginary Forces, ‚ a forma como ele lida com a tipografia. Um dos s¢cios da empresa, Houghton, afirmou em entrevista a revista American Cinematographer: “Uma das razäes pela qual somos mais conhecidos ‚ a maneira como tratamos a tipografia visualmente como imagem.". O pr¢prio Kyle Cooper refor‡a a importƒncia que tem a tipografia em seu trabalho ao considerar que a tipografia ‚ como um "ator", que deixa de ser ele mesmo para representar um personagem. Ele defende que a experimenta‡Æo na tipografia deve ter uma importƒncia maior do que simplesmente est‚tica. Ela deve servir para expressar a id‚ia e o sentido do filme.

 ineg vel que a Imaginary Forces ‚ a grande respons vel pelo novo valor que se tem dado ao design de cr‚ditos de filmes. O seu trabalho tem estabelecido um padrÆo de qualidade que est  sendo seguido por outros designers de cr‚ditos de filme no mundo inteiro. Mesmo sendo uma empresa nova j  se pode notar uma identidade pr¢pria nas suas cria‡äes, que influencia outros trabalhos, inclusive no Brasil, vide filmes como Matadores e A‡Æo entre Amigos, ambos de Beto Brant.

Cr‚ditos de filmes bem elaborados estÆo se tornando cada vez mais comuns. Neles, o uso da tipografia enquanto elemento imag‚tico e animado, ultrapassando o significado apenas ling¡stico, transmite uma maior quantidade de informa‡äes ao receptor do que a tipografia est tica. Neste caso, o receptor ‚ cativando desde a primeira cena, podendo os cr‚ditos ainda ajud -lo na contextualiza‡Æo, e at‚ na compreensÆo do filme.

Literatura B sica

Type in Motion - Innovations in Digital Graphics de Bellatoni

6 chapters in design de Dorfsman

Tipografia digital de Priscilla Farias, editora 2AB

Tipografia p¢s-moderna de Jacques, editora 2AB


Marcos Buccini ‚ webdesigner do CESAR em Recife. Este artigo foi retirado do seu projeto de conclusÆo do curso de Design Gr fico na Universidade Federal de Pernambuco, apresentado em dezembro de 1999.

 

 
Busca no site